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Primeiro dia de aula
Autor: Fraga
Casal com uns 8 anos de casados. Se dão bem, não há crise, vivem tranqüilamente a felicidade que conquistaram. Mas a mulher quer um pouco mais dessa vida e desse casamento. Ela chega em casa após seu primeiro dia com um tear e entra na sala com a bolsa de tecido a tiracolo. Ela está bem animada, ele está relaxado, lendo o seu jornal. Enquanto ela relata empolgada tudo que aprendeu, ele demonstra relativo interesse aqui e ali.
- Oi, querido!
- Oi.
- Notou a novidade? (mostra a bolsa, alisando)
- Qual?
- Tá vendo essa bolsa linda?
- Mais uma pra coleção?
- Não, querido: ela tem tudo a ver com uma nova etapa em minha vida!
- Ah, é?
- Sim, você sabia que hoje foi o meu primeiro dia de aula na escola de tecelagem?
- Eu percebi. O cheque pré-datado caiu antes do prazo...
- Ah, querido, eles são tão legais. É o preço pra eu me reencontrar através da arte têxtil!
- Quer dizer que você vai de novo encher a casa daqueles penduricalhos de cordinhas de sisal?
- Ai, Advanir. Aquilo era macramé, ma-cra-mé! Mas o macramé não é como tecer. Só a tecelagem transcende. E eu preciso transcender!
- Quando vai ser isso!
- Bom, pra começar às segundas, quartas e sextas. Ou terças e quintas, ainda vou decidir.
- (Olhando o próprio relógio) E essa tal transcendência, vai influir muito no horário do jantar?
- Ai, Advanir! Você é tão materialista! O tear é o centro do Universo, querido!
- Como assim?
- Olha só, o tear é como o próprio Cosmos:
Espaço em aberto para a pessoa se realizar na direção que quiser! Assim como eu posso escolher os vazios a preencher no tear, posso fazer igual a minha vida real, percebe?
- Tudo isso?
- Sim, enquanto vou tecendo, com os pontos e nós, vou-me libertando das amarras históricas da mulher, das minhas amarras sociais e até das minhas amarras conjugais!
- Quer dizer que começa fazendo uns paninhos e termina no nosso divórcio?
- Ai, Advanir! Paninho, não: arte! (Tirando algo da bolsa) Olha aqui, a minha primeira obra.
- Onde?
- (Girando nos dedos)Aqui, aqui.
- Quê?! Esses barbantes são uma obra de arte?
- Barbante, não! Lã, a mais sagrada lã natural.
- Bem, tudo que estou vendo são uns fiozinhos pra lá e outros pra cá.
- Pois é isso, querido! Vou explicar, presta atenção. Este é o fio de Ariadne!
- De Ariadne?
- Sim, Ariadne, por quê?
- Não pega mal você, logo no primeiro dia de aula, pedir material emprestado pruma colega de curso?
- Ai, Advanir! Ariadne é um personagem da Mitologia grega. Com seu fio, ela ajudou Teseu a escapar do labirinto. O fio de Ariadne influi no destino da humanidade, é isso.
- No meu, não
- Veja, vou demonstrar (Pendurando um fiozinho nas pontas dos dedos) O meu destino pode ficar assim, na vertical. (Mudando de posição, segurando nas duas pontas) Ou assim, tchaaannnn!, na horizontal Não é sensacional?
- Puxa, tudo isso já na primeira aula?
- Ai, Advanir! Sensibilidade, homem! O tear põe ordem no caos, ele organiza os encontros das infinitas possibilidades dos elementos universais!
- Como esses fiozinhos aí, cruzados?
- Ai, Advanir! Usa o poder da mente! Esses fiozinhos jamais tinham se cruzado antes na vida, não é?
- Vá lá, é.
- Pois então, eles que até hoje nem sequer sabiam das existência um do outro, agora, graças ‘a minha intervenção artística, estão entrelaçados para a eternidade. Não é fantástico?
- Puxa, esse emaranhado de cordões significa tudo isso?
- Ai, advanir! Não são cordões, são partes de um meada de lã, e isso pode ser o que quiser!
- O quê, por exemplo?
- Ah, imagina: uma manta.
- Hum, vai deixar mais que os pés de fora.
- Ai, Advanir! Tem que expandir a visão interior! Pode ser, ah, sei lá, um jogo americano.
- Bom, aí já consigo imaginar. Já estou vendo a franja dele aí.
- Viu?! O tear é assim! Abre a percepção das pessoas! Tem que ver a mentalidade das minhas novas colegas! A gente tramou a aula toda!
- Mas com as suas antigas amigas você já trama o tempo todo.
- Ai, Advanir! È trama de tecer. Numa próxima aula vou aprender até a fazer fuxico.
- Mas você também já fuxica há anos com as suas amigas ao vivo, pelo telefone, agora até pela internet.
- Ai, Advanir! Você não quer compreender o poder do tear! Você não sabe é nada do pente-liço!
- Pente-liço?
- É, pente-liço. Que foi?
- Você tá freqüentando um ateliê ou um cabeleireiro?
- Ai, Advanir! Evolui, evolui! Tem vários tipos de tear. Um dia eu posso ter aqui em casa até um tear de pedal.
- Hein? Você vai pedalar num tear aqui na nossa casa?
- Sim, por quê?
- Nada. To só lembrando que é mais uma coisa de pedal pra ficar largada lá na garagem, igual à sua bicicleta ergométrica que você não pedala há meses.
- Ai, Advanir! Se dependesse da sua antevisão, a humanidade ainda estaria nas cavernas. Graças às tecelãs, o ser humano parou de usar aqueles pelegos fedorentos e hoje os nossos corpos e a nossa casa desfrutam de toda a beleza e o conforto que o tear legou ‘as pessoas, inclusive aquelas que ficam lendo seu jornalzinho recostado em almofadas macias de tecido artesanal...
- Puxa!
- Você devia ser muito grato à escola de tecelagem, seu ingrato.
- Eu? Mas, por quê?
- Por que daqui em diante nós vamos tramar muitas coisas muito interessantes num enxoval novo que eu vou tecer...
- Hum, já estou vendo quanto isso vai me custar...
- Ai, Advanir!
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