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Caminhos culturais, uma introdução
Palestra proferida por Maria Rita Webster, no 5º Seminário de Arte Têxtil.
Porto Alegre, RS, julho de 2005
       Antes mesmo que percebêssemos e discutíssemos o que é cultura, identidade cultural e cultura popular, fomos engolidos pela globalização.

       O mundo foi integrado e pasteurizado, e com tal violência e rapidez que, não só nos deixou perplexos e sem ação, como nos deixou uma aldeia. Uma aldeia global como já preconizava Mc Luhan; e ficamos atônitos.

       Os valores culturais e estéticos pareciam uníssonos. A avalanche econômica generalizou - de acordo com interesses de mercado -, e definiu o que bem entendeu como importante, para eleger o padrão global, e a mídia confirmou e divulgou.

       Esta generalização foi tão forte e convincente, que arrastou consigo profissionais como designers, decoradores, arquitetos de interiores e jornalistas, que colaboraram para concretizar estas determinações. Só valia o que vinha de fora, sacralizado por alguns.

       Custamos a reagir e dizermos: “ Esperem aí, deixem-me entender e ver o que eu tenho, quem eu sou e onde vivo. Qual é minha tribo. Todos nós temos necessidade de pertencimento” e de identificação.

       Como diz o Prof José Alberto Nemer, no artigo “um pouquinho de Brasil iá iá”, publicado na Revista Casa Vogue, deste mês: ".... mas só a partir de 1960 que uma busca deliberada de identidade cultural começa a ser feita. Com as tensões desencadeadas pelo golpe militar que durou duas décadas, as elites intelectuais mergulharam numa pesquisa de terreno cultural do País em busca de vestígios de uma cultura de resistência. Na falta de uma identidade cívica buscou-se uma identidade cultural. Uma nova convergência entre os pólos da cultura popular e das elites então se anuncia, unindo o Brasil em torno de elementos culturais de consenso. AMPB é um exemplo contundente. Passadas quatro décadas, o Brasil entra agora numa visão mais crítica e amorosa de si mesmo. Diante da globalização massacrante, parece prudente rever as qualidades domésticas.”

       Começamos a olhar o nosso entorno. Primeiro de uma maneira tímida, depois de maneira atabalhoada, de encantamento desmedido, para finalmente, já com mais critérios, conhecimento, e também mais amadurecimento, vermos que temos uma cultura popular nossa. Que temos, em todas as áreas, expoentes importantes.

       A antropologia cultural, que, enquanto disciplina, com estudos sistematizados, atingindo foros da área universitária, é que vem nos ajudar a entender e compreender quem somos culturalmente.

       A antropologia cultural, para realizar esta compreensão e estudo, parte do conceito de cultura.

       Muitos pesquisadores, filósofos e sociólogos buscaram definir cultura. Existem tantas definições que Kroeber e Kluckholn se deram o trabalho de fazer uma lista: são centenas.

       No texto de uma conferência intitulada “Folclore e identidades culturais”, proferida pelo sociólogo Prof. Gilberto Velho, (que convidei para integrar este nosso seminário) a cultura é definida como:
“Um sistema de crenças e valores compartilhados dentro de uma sociedade ou dentro de um grupo social”

       Já o Programa de Artesanato SEBRAE, define, da mesma forma, com outras palavras:
       “Do ponto de vista antropológico, a identidade é constituída, principalmente, a partir de dois elementos:
       - as características presentes no espaço territorial ocupado;
       - e o conjunto de símbolos e signos lingüísticos, códigos e normas (moral, ética, etc), objetos, artefatos, costumes, ritos e mitos (religião, folclore, música, culinária, vestimentas, etc) aceitos e praticados coletivamente, capazes de distinguir um determinado grupo social dos demais.”

       Não sou socióloga para fazer o aprofundamento necessário, mas como vocês, sei também, que os valores, crenças e símbolos de um grupo se formam através de muitas influências, entre elas, as de migração, situação geográfica, clima, recursos naturais, matéria-prima disponível, etc.

       É completamente diferente a realidade de um grupo social que vive na região serrana, de origem européia, que tenha uma flora abundante, de clima frio, com ritos religiosos específicos, com uma determinada vivência e experiências, de um outro grupo, que viva numa região litorânea, de migração de origem africana, de clima quente, por exemplo.

       Hoje se tem a compreensão, que estes grupos são diferentes culturalmente, em suas manifestações, e no seu modo vivendis. Mas só diferentes, não superior ou inferior. Este é o grande ganho da compreensão da antropologia cultural.

       Estes conhecimentos nos ajudam a entender e respeitar as diversidades, enquanto diferenças. E desenvolvem a nossa capacidade de compreender, admirar e respeitar as manifestações culturais de diversos grupos sociais dentro de suas realidades.

       Fazem-nos enxergar e reconhecer o talento, a criatividade e principalmente a honestidade do objeto, da festa e do folguedo, porque eles realmente expressam e revelam aquele determinado grupo. E por isto nos encanta.

       Sabendo isto, é que podemos começar a desenhar a cartografia cultural brasileira. Dizer que o nosso país, tem um território continental, é um chavão, mas é uma verdade. Só para falarmos na sua extensão territorial, basta dizer que:
       - tem o seu território em dois hemisférios,
       - tem 8.00000000kms2,
       - tem um litoral de 800000000000 lineares,
       - tem 26 estados e um distrito federal, em que cabe a Europa toda.
       O nosso território brasileiro, tem ao mesmo tempo:
       - o clima temperado, frio, quente
       - a vegetação agreste, serrado, pampeana, ....
       - a hidro ....        - enchente em determinada região e seca em outra.

       A formação do povo é outro dado determinante: temos o índio, o branco, o negro. Uma miscigenação muito peculiar, não só porque houve realmente uma miscigenação, mas porque foi multirracial e de todas as partes do planeta.

       Tudo no Brasil é tanto, tão superlativo, que resulta numa quase indescritível colcha de retalhos, com toda a sorte de influências - internas e externas -, texturas, cores, grafismos e signos.

       Só poderíamos ter o que temos: uma cultura popular riquíssima.

       Os grupos se formaram, se aglutinaram e agora passam a ser revelados por diversas manifestações, como:
       - por festas populares ou festas de fé
       - por sua culinária,
       - por seus ritos
       - por linguagem
       - por suas crenças
       - por seus fazeres manuais

       E o Brasil passa a se desnudar. Mas de outra maneira. Não como bicho de zoológico, despertando uma curiosidade suspeita, um olhar batido, um olhar estrangeiro, distante. Não. O Brasil passa a revelar seu povo, com familiaridade, com intimidade, fundamentalmente com respeito. Abram alas que é o nosso Brasil que pede passagem.

       Como diz novamente o Prof José Alberto Nemer, no mesmo artigo “um pouquinho de Brasil iá iá”, “O Brasil está na moda, no mundo. Mas o surpreendente é estar na moda também no Brasil. Que fenômeno é esse que nos faz ver a produção cultural brasileira espalhada pelo mundo afora, como o barroco em Nova York, a arte indígena em Paris, o chorinho em Tóquio? E esse outro fenômeno, de caráter interno, que é ver fotógrafos nativos varrendo com suas câmeras os aspectos mais inusitados do cotidiano do povo, ver as lojas mais sofisticadas mesclando em seus produtos o artesanato brasileiro ou ver livros e revistas do País mapearem esse território em extensão e em profundidade?

       Dos colonizadores aos artistas viajantes, dos antropólogos aos brasilianistas, de uma forma ou de outra, o Brasil sempre foi fonte de curiosidade científica para o olhar estrangeiro. Da mesma maneira, para uma boa parte dos criadores brasileiros , o País sempre significou um profícuo manancial de inspiração. O que se vê – e usando aqui um dos conceitos de nossa modernidade – é um grande banquete antropofágico.
E todos interagem.

       - Se a abordagem for na esfera dos decoradores, arquitetos e imprensa especializada, já percebemos que eles se posicionam de outra forma. Uma arquiteta me disse que quando integra um objeto artesanal em uma decoração, dá tratamento de museu. Lugar nobre, não mais como um objeto simplesmente. Ele revela, ela me disse, e precisa ser tratado com dignidade.
       - Os designers, integrados a programas de artesanato, sabem que estão ajudando a construir um produtos de referência cultural e que devem valer-se de elementos que remetam o produto ao seu lugar de origem, seja através do uso de certos materiais ou técnicas de produção, típicas da região, ou seja pelo uso de elementos simbólicos que façam menção as origens de seus produtos e/ou antepassados.
       - Se a abordagem for turística - e que agora o Ministério do Turismo criou os roteiros brasileiros visando mostrar o Brasil também pela suas manifestações culturais - sabemos que não voltaremos os mesmos de uma viagem. E quem nos recebe também não fica imune.

       Grupos se organizam para conhecer determinados lugares ou regiões brasileiras, tendo em seus roteiros, visita a artesãos, onde, além de dialogar, ouvir, admirar, compram os objetos por eles produzidos, com carinho e como se tivessem comprando um objeto valioso, de um design peculiar, em uma loja especializada, de grife. Ninguém mais se contenta com turismo de compras e praias. É necessário conhecer mais.

       Podemos dizer que já prestamos atenção às nossas manifestações populares, mas que temos muito a fazer.

       Precisamos passar para outra etapa. A busca de programas de:
       - memória de ofício, absolutamente necessários, pois já temos algumas técnicas se perdendo;
       - registro organizado e conceitual desta memória genuína brasileira, ainda intocada em alguns grupos;
       - bibliografia especializada disponível,
       - registro fotográfico disponível, pois sabemos que são publicados muitos livros, normalmente brindes de empresas, que circulam em uma área restrita impedindo que estas informações sejam disseminadas

       Sem querer ser ufanista ou nacionalista, que bom que somos brasileiros, que é esta a nossa cultura, a nossa gente. Que bom que nos manifestamos desta forma, com singeleza, espontaneidade

       E que bom que podemos viajar e ver todas estas manifestações que nos identificam, in loco.

       O que nos interessa de maneira especial e particular, são as manifestações do fazer. O fazer manual, artesanal, e este podemos separar em:
       - tecelagem
       - cerâmica
       - madeira

       É esta a caminhada e a cartografia que começamos a redesenhar neste cenário e mudar os critérios e valorização destas manifestações. Depois, entidades como SEBRAE, e comunitárias.

       Mas o que temos? Nesta reação ao globalizado, começamos a olhar o que temos. Para uma análise maior, primeiro temos que entender o que é cultura. Sabendo disto temos que verificar o que contribui para a formação destes valores.

       São várias os elementos que contribuem para chegarmos as estes valores:
       - Migração,
       - Meio ambiente
       - Clima
       - Posição geográfica
 

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