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Um pouquinho de Brasil Iaiá
Palestra proferida por José Alberto Nemer no 5º Seminário de Arte Têxtil.
Porto Alegre, RS, julho de 2005
Publicada na revista Casa Vogue
       O Brasil está na moda, no mundo. Mas o mais surpreendente é estar na moda também no Brasil. Que fenômeno é este que nos faz ver a produção cultural brasileira espalhada pelo mundo afora, como o barroco em Nova York, a arte indígena em Paris, o chorinho em Tóquio? E este outro fenômeno, de caráter interno, que é ver fotógrafos nativos varrendo com suas câmeras os aspectos mais inusitados do cotidiano do povo, ver as lojas mais sofisticadas mesclando em seus produtos o artesanato brasileiro ou ver livros e revistas do país mapearem esse território em extensão e em profundidade?

       Dos colonizadores aos artistas viajantes, dos antropólogos aos brasilianistas, de uma forma ou de outra, o Brasil sempre foi fonte de curiosidade científica para o olhar estrangeiro. Da mesma maneira, para uma boa parte dos criadores brasileiros, o país sempre significou um profícuo manancial de inspiração. Mas não de forma tão generalizada como agora. O que se vê – e usando aqui um dos conceitos de nossa modernidade – é um grande banquete antropofágico.

       Quando a Semana de Arte Moderna de 1922 comemorou o ritual dos índios Caetés, que jantaram o bispo Pero Sardinha nos idos de 1500, estava usando como metáfora a idéia de que é digerindo nossos colonizadores – leia-se: influências - que faremos circular em nosso sangue suas qualidades. Para um mundo em crise, onde sociedades estratificadas cristalizam hábitos e onde culturas sob o peso do tempo carecem de oxigenação, é compreensível que o Brasil da diversidade, da informalidade, do jogo de cintura, da alegria e da capacidade de superar com poucos meios os obstáculos, seja o colonizador da vez. E, como tal, nada mais natural e suculento do que ser o prato principal dessa voraz antropofagia.

       Mas, o que dizer dessa espécie de autofagia, desse grande repasto que é o Brasil sendo consumido pelos próprios brasileiros? A resposta está mais longe. E mais funda. Na colonização feita pelos brancos europeus, os índios e os negros foram desenraizados de suas tradições e aculturados no caldeirão étnico do país, como parte de sua incorporação à força de trabalho. A classe dominante, longe de ser um estrato senhorial e culto de uma sociedade autônoma, era gerente dos interesses da metrópole. Criou-se assim uma dicotomia histórica, como dizem os sociólogos, entre aqueles que mandam e aqueles que obedecem. Como conseqüência, nasce aí também uma bipolaridade sócio-cultural: arte popular e arte das elites. Como a cultura é um elemento vivo, esses dois segmentos da produção cultural terão, ao longo de nossa história, movimentos cíclicos de aproximação e afastamento.

       Um dos momentos de integração cultural está no ciclo do ouro e do diamante na Minas Gerais do século XVIII. Alguns fatores decisivos fizeram surgir nessas montanhas do Brasil Colônia uma sociedade atípica e criativa. Sobretudo, uma sociedade com nuanças inclassificáveis, como se começasse aí a maravilhosa geléia geral brasileira. Em que categoria social definir, por exemplo, um filho de prestigiado arquiteto português com sua escrava negra? Como classificar um insuspeitado padre que transportava em procissão um santo-do-pau-oco recheado de ouro contrabandeado? E o que pensar, então, de poetas e militares da elite intelectual que, conscientes da autonomia que a cultura e as riquezas da colônia lhes dão, resolvem fazer uma revolução contra a Coroa?

       Essa sociedade libertária vai se refletir diretamente na arte. Enquanto o barroco se impunha no litoral brasileiro como um estilo inteiramente importado, em Minas o Aleijadinho ia revolucionando os padrões estéticos e utilizando matéria-prima da região (como a pedra-sabão). Era a brasileirização do barroco. Foi por isso que o poeta suíço-francês Blaise Cendrars sugeriu aos amigos modernistas brasileiros, quando viajavam juntos por Minas em 1924, que “tomassem o trem para Minas ao invés do navio para o Havre”. Era a confirmação das teorias do grupo diante de uma arte original, com influências culturais devidamente antropofagiadas e, por isso, luz paradigmática para um Brasil culturalmente moderno.

       Esse colóquio amoroso de uma cultura integrada vai sofrer, entretanto, um sério revés. A Missão Artística Francesa trazida por D. João VI em 1816 passa a irradiar as influências do neoclassicismo. As famílias aprendem as bonnes manières francesas, enquanto suas casas se enchem de paisagens de montanhas nevadas e frisas gregas. O conceito estético oficial elimina tudo o que não seja o virtuosismo acadêmico, desqualificando qualquer outra iniciativa espontânea como algo primitivo e inferior. Durante esse período de divórcio, a criação popular fica voltada para a função religiosa e ritualística, produzindo os ex-votos. É a permanência de uma sociedade mítica e mágica.

       A Semana de 1922 é o primeiro movimento ideologicamente consciente de valorização de raízes brasileiras para, a partir delas, projetar o contemporâneo. Mas é só a partir dos anos 1960 que uma busca deliberada de identidade cultural começa a ser feita. Com as tensões desencadeadas pelo golpe militar que durou duas décadas, as elites intelectuais mergulharam numa pesquisa do terreno cultural do país, em busca de vestígios de uma cultura de resistência. Na falta de uma identidade cívica buscou-se uma identidade cultural. Uma nova convergência entre os pólos da cultura popular e a das elites então se anuncia, unindo o Brasil em torno de elementos culturais de consenso. A MPB é um exemplo contundente.

       Passadas quatro décadas, o Brasil entra agora numa visão mais crítica e amorosa de si mesmo. Diante de uma globalização massacrante, parece prudente rever as qualidades domésticas. E em casa, apesar do regime democrático, há um esvaziamento de diálogo entre a classe política e a sociedade. Mas a criatividade do povo, que dispensa a compreensão da esfera institucional, tem demonstrado uma capacidade intrínseca de se renovar e de inventar caminhos. O que a cultura popular produz vem ao encontro das elites, afirmando-se como mola propulsora na construção de uma identidade nacional. Enquanto as elites cultas buscam uma forma de expressão que traduza o Brasil, eis que a cultura popular sustenta o privilégio de possuí-la no cerne.

       Por mais difícil que seja a vida para a grande população brasileira, não há como aplacar orgulhos nem relativizar idéias, calcadas na certeza de que vivemos num paraíso terrestre, de grandeza continental, de riqueza natural única, sem catástrofes atmosféricas e habitado por um povo dócil e amigo. Com intenção artística ou não, o que se faz é para celebrar o Brasil. Basta ver a imaginação do povo em momentos de mobilização, como nas copas do mundo. Mas também espontaneamente, quando prevalece o duro dia-a-dia. Lançando mão dos mais diferentes materiais, os criadores no cotidiano produzem imagens que reinterpretam o país. Os símbolos, signos e ícones do Brasil terão sempre essa desmedida necessidade de afirmação.

       Através de todos esses objetos e imagens que hoje circulam com a cara brasileira, pode-se ver um outro Brasil, com o frescor que se reinventa todos os dias e com o humor de que precisamos sempre. São bandeiras, paisagens, bichos, santos, futebol, alvoradas. Mitos nacionais. São as cores verde e amarela. Nessa celebração solidária, não estará o povo brasileiro buscando um pertencimento usando a força da poesia?
 

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